Modelo de Jogo para a Liderança de Treinador

Hoje vamos abordar o tema do Modelo de Jogo para Liderança de Treinador que é a FORMA como um treinador joga o jogo de liderar a sua equipa, os seus superiores, os seus colegas e os pais ou adeptos de um determinado clube

A este modelo vamos tratar de Modelo de Liderança do Treinador e é a aplicação deste modelo que irá permitir ao treinador entrar numa equipa para alinhar todas estas pessoas para atingir o objetivo da época desportiva.

 

O Modelo de Liderança do Treinador só é importante se houver metas:

Falamos no post anterior em: os 4 Modelos de Jogo para a Profissão de Treinador (se não viste podes ir direto por aqui) que o objetivo da época poderá:

  • ser campeão,
  • ser um dos que ficam na lista vai disputar um lugar numa prova (como a liga europa ou liga dos campeões nos países da europa), ou
  • ser um dos que garantem a manutenção o mais rapidamente possível ficando nos 4º ou 5º lugares, ou ainda de não descer de divisão procurando os lugares acima da linha de água.

Quando um treinador entra numa equipa tem uma meta a cumprir, uma meta relacionada com o lugar na tabela classificativa. Mas pode ter outros objetivos também, vistos como secundários:

  • Desenvolver atletas jovens para não precisar de comprar jogadores;
  • Desenvolver atletas que compra, para vender por um valor mais alto;
  • Conseguir ter um bonito e excelente futebol que leve a que mais adeptos assistam aos jogos;
  • Desenvolver atletas nas suas aprendizagens experienciais e que possam transportar para a vida, como jovens ativos ou com hábitos de vida saudável, ou ainda de comportamentos de cooperação, assiduidade, que possam levar para os desafios da vida.
  • Ganhar prémios e consecutivamente ganhar mais dinheiro com isso;
  • Bater records e atingir estatísticas que nunca foram alcançadas;

Entre muitas outras ideias…

Quando o treinador entra numa equipa, nem sempre estas metas são claras entre o que

  • o clube quer atingir,
  • o que o treinador quer atingir e
  • o que os atletas querem atingir.

Já para não tocar no ponto, de que o que os adeptos querem ainda poderá ser diferente.

Quanto mais o treinador conseguir este alinhamento entre os “quereres” de cada um destes intervenientes menos conflitos terá de lidar durante a época.

O Modelo de Liderança do Treinador é uma forma que o treinador precisa de criar para evitar vários problemas que vão existir. Quem não tem este modelo passará pelas dificuldades sem saber como as resolver, parecendo que está a apagar fogos a toda a hora.

Um exemplo disso é quando temos atletas que não se querem esforçar muito para “ganhar” todos os jogos, e que apenas se querem divertir no caso da formação. Ou no caso de seniores, alguns atletas pretendem ganhar algum dinheiro, e não se querem esforçar mais por atingir um nível de profissionalismo maior. Isto já por si é um indicador, não que os atletas não querem e são eles os culpados, mas de um modelo de liderança pouco claro para o treinador, porque ele não sabe quais são os atletas que pretende ter na sua equipa, e que precisa de ter a fim de atingir a meta definida da época.

Um outro exemplo, são os treinadores que recrutam (como principais) ou que entram numa equipa técnica (como adjuntos), e que não se sentem motivados ao longo de uma época na equipa técnica, onde existem inúmeros conflitos por pouca clareza das funções uns dos outros. Uns treinadores principais que agarram em tudo o que é do treino e dão pouco espaço para os adjuntos fazerem as coisas, ou mesmo ouvir as ideias dos adjuntos. Ou adjuntos que querem partilhar as suas ideias, e não são ouvidos, ou que fazem trabalhos que depois o principal nem sequer vê. Todas estas situações revelam a falta de uma orientação das funções e missões internas na equipa técnica. É o que normalmente acontece aos atletas quando não têm um modelo de treino e de jogo bem definido, ficando perdidos e não sabendo com clareza o que o treinador pretende em cada fase ou momento do jogo.

O mesmo problema, antes de passar para os atletas, já existe entre os elementos da equipa técnica, e às vezes entre a direção, delegado, massagista…

 

O que não é um Modelo de Liderança do Treinador

O modelo de liderança do treinador não é uma receita:

  • de como treinador tem de fazer as coisas, bloqueando-o e pensando que tem de seguir à risca a forma como o Guardiola ou outro treinador conhecido faz.
  • não é um livro que se lê e pronto, ou que envolve teorias dinâmicas e confusas que estão longe da prática;
  • não é a descrição de comportamentos de que se fizeres isto és um líder ou se não fizeres não és um líder;
  • não é uma lista que características que tens de aplicar porque distingue o que é um líder do que é um chefe;
  • não é ser amigo dos atletas e ter a porta sempre aberta;
  • não é dizeres tudo o que pensas aos atletas, esperando que eles te compreendam;
  • nem é esconderes tudo à tua volta pensando que os atletas e outros (elementos) da equipa técnica, te vão “tramar”;
  • não é um modelo feito uma vez e aplicado para sempre;

Muitas das vezes, os treinadores que ouvem a necessidade de ter um modelo de liderança faz trazer ao de cima o pensamento:

  • “a minha liderança sou eu que a faço”, ou;
  • “eu não preciso nada sobre liderança, porque o líder sou eu e todos têm que fazer como eu digo que alcançamos as coisas, se não alcançamos é porque não fazem o que eu digo”;
  • “se os atletas fizerem o que eu digo ou apliquem no campo o que eu explico, nós conseguimos”;

Só que o facto de os atletas não fazerem o que se quer, não estejam em algum momento concentrados, ou não estejam motivados para aplicar as ideias, os exercícios ou mesmo ouvir o treinador, é a representação de uma forma de lidar com eles que não é:

  • a forma como eles recebem a informação,
  • a informação clara que eles precisam;
  • com os exemplos que eles precisam, etc…

 

E neste caso, o líder normalmente tem 2 escolhas.

Uma escolha é ir de encontro às pessoas que tem à sua volta, saindo da zona de conforto e ser ele a adaptar-se às necessidades dos atletas. Nesta última frase, disse necessidades e não caprichos, são duas coisas distintas. Necessidades é o que o atleta precisa da parte do treinador para cumprir e ter sucesso. Capricho é um desejo individualista do atleta que pode ou não prejudicar a equipa.

A outra escolha do treinador é ser ele mesmo como é, só com as suas ideias, fechado no centro dele mesmo como se tudo girasse em torno dele, e como se ele mesmo jogasse o jogo em vez dos atletas.

Nesta última escolha, tendencialmente o treinador irá se rodear de pessoas com baixa autoconfiança ou pessoas interesseiras, que estão presas a ele e não se desenvolvem, ficando dependentes da forma de ele pensar e estar. Este tipo de treinador irá ter atletas que apenas permanecerão com ele uma época, não aguentando a 2ª ou a 3ª época, originando uma elevada rotatividade de atletas na equipa, de ele mesmo, rodando de equipa em equipa.

 

Ter as suas IDEIAS, mas adaptá-las

O treinador que tem a primeira escolha, ou seja,

  • que adapta as suas ideias às pessoas à sua volta, que sai da zona de conforto sendo ele próprio mas;
  • que procura como passar essas ideias a pessoas distintas adaptando-se às necessidades do grupo de atletas;

precisará de ter uma ideia de como fazer isto, ou seja, de saber como se adapta ideias a mentes completamente diferentes, umas mentes mais lógicas, outras mais criativas, outras mais sentimentais, e outras mais estruturadas e organizadas.

Mas isto é apenas parte da função de liderança que o treinador tem de exercer.

 

Como se constrói um modelo de liderança?

Para construir um modelo de liderança é fundamental o treinador ter a noção do percurso que é a viagem de uma época desportiva. O percurso em que o treinador tem de ser um líder implica haver com já falamos uma meta, mas também uma realidade inicial.

Vamos ver isso na imagem seguinte:

  1. O nº 4 é a representação da meta final;
  2. O nº 1 é a realidade inicial de como está o clube, a equipa técnica, a equipa de atletas, e os departamentos auxiliares, como o médico entre outros;
  3. O nº 2 é o planeamento que o treinador tem de realizar para conseguir levar a equipa do momento inicial (de quando pega na equipa, seja no início da época ou a meio), até à meta no nº 4.
  4. O nº 3 representa a aplicação prática e os obstáculos que terão de passar para conseguir levar a equipa do nº1 ao nº 4.

Vamos então abordar cada um destes 4 fatores que preenchem o Modelo de Liderança do Treinador.

 

nº4 – Meta da Equipa

Muitos treinadores têm a ideia de que não se pode definir a meta da equipa, colocando em causa se vão ou não atingir essa meta, e depois os atletas podem ficar frustrados por não conseguir. Alguns não estabelecem mesmo metas porque não sabem depois como tirar os atletas dessa frustração, ou de eles mesmos saírem dessa sensação. Por isso, torna-se mais fácil desistir de definir metas, evitando lidar com estas emoções.

Outros treinadores, não menos, definem metas totalmente irrealistas. Eles não fizeram primeiro o número 1, ou seja, não fizeram primeiro o diagnóstico de qual a situação atual para depois saber se tem ou não os recursos necessários.

Então um modelo de liderança é constituído por um conjunto de técnicas que nos ajudam a definir metas, de como se definem metas realistas e de como lidar com a frustração de não atingir alguma pelo meio.

 

nº1 – Realidade Inicial

Fazer um diagnóstico inicial é fundamental.

Antigamente, e acredito que ainda muitos treinadores façam, cada vez menos é certo, aplicavam uma bateria de testes físicos para medir a potencia aeróbia, anaeróbia, o lactato, a flexibilidade, a força e a resistência dos seus atletas.

Hoje, fazer esse diagnóstico, mas relacionado com os:

  • recursos físicos,
  • humanos, espaciais,
  • temporais,
  • entre outros,

É fundamental para o treinador ter uma ideia de como está o clube e a equipa antes de assumir a meta que o presidente, direção, coordenador lhe colocam em cima da mesa.

Um exemplo disso, foi um dos treinadores que acompanhei do campeonato nacional de juvenis, ao qual lhe deram como missão ficar nos 4 primeiros lugares da 1ª fase, e nem campo tinham para treinar, precisando de ir para um campo emprestado com uma deslocação grande do campo principal, onde os atletas teriam de tomar banho. Claro que ao final de alguns meses, a equipa não conseguiu seguir com os objetivos pretendidos, e a expetativa excessiva dos atletas, clube e direção provocou um desânimo geral.

Isto claramente foi uma medida mal efetuada entre aquilo que eram as condições iniciais e a meta final. Poderiam ter conseguido na mesma? Sim, claro. Mas não como condição de êxito ou fracasso daquela equipa, mas antes como 1 das 3 dimensões das metas que devemos estabelecer no início do trabalho e que poderemos falar num próximo post sobre o Modelo de Liderança do Treinador na prática.

Torna-se então crucial o treinador ter um método de avaliação inicial para diagnosticar as condições iniciais do projeto onde vai entrar. Nesse método deverá ter forma de avaliar as condições mesmo antes até de assumir a meta, para que exemplos destes referidos acima, não aconteçam. E depois de ter um método ou um passo a passo que vai verificando para ter a noção se as condições irão permitir ou não a realização das metas.

 

nº3 – Obstáculos

Esta verificação da realidade inicial, permite também ao treinador antecipar cenários de obstáculos. A forma como faz a avaliação inicial permite-lhe verificar nas relações com as pessoas que obstáculos terá de enfrentar ao longo da época, sejam eles internos, ou seja, com a direção, com os atletas e com a equipa técnica, ou mesmo com a necessidade de recursos, com as necessidades de recrutamento, ou com as necessidades de materiais e campos.

  • Uma coisa é antecipar cenários e entender (quando entra) o estado inicial do clube e da equipa, e incluir isso no próximo passo, o planeamento,
  • ou coisa é o próprio ato de lidar com os obstáculos com que o treinador se irá esbarrar quando começar a entrar em ação.

Um exemplo disso, é a forma como o treinador tem técnicas para lidar com as criticas, com a falta de motivação dos atletas num treino, ou após um jogo, ou a falta de concentração e de empenho de atletas na competição na qual ele aplicou todos os seus conhecimentos para dar instruções aos seus atletas.

Ter técnicas para cada um destes obstáculos é fundamental para o treinador lidar com os obstáculos que surgem ao longo do percurso.

 

nº2 – Planeamento

Como referi no tópico em cima, o planeamento serve para antecipar cenários, e programar também as ações a realizar ao longo do tempo quer seja ao nível do treino (ao que chamamos de plano de treino), ao nível da semana (ao que chamamos microciclo ou morfociclo), ao nível do mês (ao que chamamos mesociclo), ou ao nível de um conjunto de meses (macrociclo). Mas o planeamento de um treinador não recai só sobre o treino.

O planeamento pode ser sobre:

  • O treino;
  • O tempo pessoal;
  • Os recursos materiais;
  • O local dos treinos;
  • Os dias de treino ou de folga;
  • Os dias de reuniões com a equipa técnica ou direção;
  • Os dias de recrutamento de atletas;
  • Os dias de observação dos adversários;
  • A planificação dos jogos, competições e de viagens;

Mas também sobre o passo a passo das metas estabelecidas no nº4.

Um treinador que apenas se foque naquilo que são as tarefas de campo, esquecendo este planeamento, ou mesmo antecipando o que pode correr mal, corre o risco de prejudicar a sua equipa, ou mesmo de dar uma desculpa aos atletas para terem perdido um jogo.

Um exemplo disso é por exemplo, um caso que aconteceu a um treinador que acompanho no campeonato nacional de seniores ou campeonato de Portugal (3ª divisão em Portugal), em que fizeram uma viagem de lisboa ao algarve, e quando chegaram ao destino, descarregaram tudo para o hotel, e quando já estava tudo de fora e pronto para entrarem no hotel, o motorista tinha-se enganado na morada e estavam num hotel com um nome parecido. Tiveram de voltar a colocar tudo dentro do autocarro.

Mas pior do que isso, poderá ainda ser a ausência de planeamento relativamente ao recrutamento. Imagina que desenvolves tão bem os teus atletas que em dezembro vários clubes querem ir buscar os teus jogadores. Ao ponto de ficares sem atletas para treinar porque outros estavam lesionados. Isto porque os atletas podem ir embora, e tu não preparaste um plano de recurso ao recrutamento para ires também buscar novos atletas para a 2ª fase do campeonato.

Tudo isto é a criação de um Modelo de Liderança do Treinador que visa, ter vários pontos de chamada de atenção, e ações concretas planeadas para realizar prevenindo o caos. Claro que não estamos a falar de prevenir tudo ao ponto de não saber lidar com os imprevistos. Estamos sim, a programar uma época para não falhar a meta definida lá no início. Para não haver desculpas.

 

O que tivemos a ver neste momento, é a importância de ter um Modelo de Liderança, de o construir passo a passo, de época para época e de aperfeiçoá-lo ao ponto de ser impossível não atingir a meta que estabelecemos.

O Modelo de Liderança previne o caos, mas também os conflitos. Une uma equipa e permite ao treinador saber o que fazer e principalmente o que fazer e quando fazer o que precisa de ser feito, cumprindo o que planeou.

É um Modelo de Ação, e não um Modelo Estático.

É utilizado para diminuir a perda de tempo em coisas que não interessam, saber como lidar com atletas diferentes, saber como motivar os desmotivados, e dar competência aos ainda incompetentes. É aprender a ler a mente dos atletas para passar-lhes as suas ideias, e não dar o mesmo remédio para todos os males que acontecem dentro da equipa. É uma forma de tornar o líder um camaleão que se adapta a cada momento à sua equipa aplicando as ferramentas certas nas situações certa. Sabendo porque o faz e não porque aconteceu, garantindo que o sucesso que tem hoje se poderá repetir por várias vezes e não porque aconteceu naquela época, e depois não consegue reproduzir os mesmos resultados noutras equipas.

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Abraço, e vamos juntos.

Trainer Carlos MSilva